Brasil e Iraque: Relações Perigosas

Neste início de uma nova Guerra do Golfo, que a moda americana de se evitar o maior número de perdas possíveis (pelo menos de soldados americanos) começa com ataques aéreos ao território Iraquiano e a demonstração pelos americanos da superioridade de sua tecnologia bélica.

Tecnologia esta que compreende desde sua fantástica frota de porta-aviões, cada um dos oito atualmente nas imediações do Iraque com capacidade para cerca de 90 aeronaves, destróieres armados com mísseis Tomahawk, caças F-117 e bombardeios B-2 invisíveis, tanques Challanger-2, até a chamada “mãe de todas as bombas” que arrasa com qualquer coisa num raio de 500 metros, entre outras, de uma infindável quantidade de armas que os americanos pretendem usar no Iraque.

Mas afinal vale se perguntar com que tipo de armas Saddam Hussein pode contar para defender o Iraque contra os Estados Unidos, e para termos esta resposta, não é necessário ir até ao Iraque, basta analisarmos as vendas feitas pelas Indústrias Brasileiras de Armas e Tecnologia Aeroespacial, na década de 80.

Para termos uma ideia a Avibrás, que fabrica o Sistema de Artilharia de Foguetes para Saturação de Área – ASTROS II, chegou a vender mais de US$ 1 bilhão ao governo de Saddam, ou ao todo 60 baterias de lançadores destes foguetes, que hoje são responsáveis pela defesa de Bagdá.

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F-15 atacando baterias de Astros II – Cartaz distribuído pelas forças norte-americanas no Iraque para incentivar os soldados iraquianos a desistirem de lutar.
Fonte: http://www.psywarrior.com/IraqNFL019.html. Acesso: 20/06/2016.

 Já a Engesa, da família Whitaker, exportou cerca de 1.070 blindados para o Iraque, sendo 300 EE-3 Jararaca, 620 EE-11 Urutu e 150 EE-9 Cascavel, o que corresponde à metade da força terrestre Iraquiana. Também foram vendidos ao Iraque aviões Tucanos da Embraer, 40 ao todo, e até mísseis.

Entretanto a venda apenas de armas não foi à única relação existente entre Iraque e Brasil, pois ambos trabalharam juntos em outros dois projetos de transferência tecnológica militar de autorrisco, ambos comandados pelo brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, do ITA, que em 1989 chegou a trabalhar no Iraque, coordenando 27 pesquisadores brasileiros.

O primeiro destes projetos visava aumentar o alcance de fogo dos mísseis Scud-B iraquianos, estes tinham um alcance de 300 quilômetros, o que não atendia aos objetivos de Saddam de atacar o Kuait ou Israel, por isso 300 destes mísseis foi trazidos para o CTA – Centro de Tecnologia Aeroespacial em São José dos Campos, onde técnicos brasileiros descobriram que cortando e ressoldando os tanques de três Scud poderiam fazer tanques maiores para dois mísseis, o que dobrou o alcance destes mísseis.

Eles também aumentaram a sua capacidade de 4 para 5 toneladas, e é graças a estas modificações feitas no Brasil que os mísseis iraquianos podem acertar alvos no Kuait ou em Israel.

O segundo projeto era mais ambicioso tendo como objetivo construir uma bomba atômica, este projeto de 10 anos começou em 1979, nesta época o Brasil tinha um programa secreto de armas nucleares, desenvolvido pela Marinha, que havia sido iniciado com a ajuda do cientista nazista, Wilhelm Groth, e que tinha desenvolvido a tecnologia de ultra-centrifugação para o enriquecimento de urânio.

Segundo dados da CIA e do Governo Americano, o Brasil chegou a vender até 20 centrifugadoras para o enriquecimento de urânio (em seu primeiro estágio) para o Iraque. Mas o que se tem certeza é que toneladas de – yellow cake – um tipo de urânio para bombas atômicas, retirado das minas de Poços de Caldas, decolaram em dois aviões iraquianos no dia 14 de janeiro de 1981 rumo a Bagdá. Entretanto nem o Iraque ou o Brasil realmente parecem ter armas nucleares.

É exatamente toda esta história que está sendo usada pelo governo Bush para justificar a guerra, mas é bom lembrar que o Iraque também manteve relações de compra de armas e tecnologia nuclear de vários outros países como a França, Itália, Inglaterra, Alemanha e até os Estados Unidos, e que nesta época estas relações eram perfeitamente aceitas pela comunidade internacional.

Só podemos esperar agora que as armas brasileiras sejam capazes de garantir ao povo iraquiano uma chance de resistência contra um inimigo inimaginavelmente mais poderoso.

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Nota 01: Este artigo foi originalmente publicado em 22/março/2003, no Jornal da Manhã, cidade de Marília, e, exceto pela imagem, não sofreu alterações, na época, o autor ainda cursava graduação em filosofia.

Nota 02: Os dados foram consultados a partir do livro “O Lobby da Morte” de Kenneth R. Timmerman (Editora Objetiva, 2002).

3 comentários Adicione o seu
  1. Bem que estranhei a introdução em pleno 2016. Os Astros não é para defesa anti aérea e sim para ataque ao solo. Onde consigo mais informações sobre essa história de brasileiros, iraquianos e mísseis Scud?

  2. O texto é antigo mesmo. Logo teremos textos atualizados.

    Recomendo a leitura do livro “Rede de Intrigas” de Roberto Lopes (Editora Record). Logo vou postar um artigo atualizando com estas informações, e com dados sobre as exportações de material bélico brasileiro.

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