Aliança Militar Islâmica: um novo player na geopolítica mundial.

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

No final de 2015 sob a liderança da Arábia Saudita, foi formada Aliança Militar Islâmica de Combate ao Terrorismo – IMAFT (Islamic Military Alliance to Fight Terrorism). Com sede em Riad (capital da Arábia Saudita), a aliança divide o mundo islâmico em dois, fazem parte da aliança as nações aliadas ao reino saudita, seus desafetos e potências concorrentes – principalmente o Irã – não foram convidados.

Estão incluídos na Aliança Militar Islâmica as seguintes nações:

Arábia Saudita, Bahrein, Bangladesh, Benin, Chade, Costa do Marfim, Djbuti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Eritréia, Iêmen, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Malásia, Maldivas, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Nigéria, Omã, Palestina, Paquistão, Qatar, República da Guiné, República do Gabão, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão, Togo, Tunísia, Turquia, União das Comores. No mapa abaixo, em verde, se destacam os países que compõe a aliança, e sua projeção global.

Países Membros da Aliança Militar Islâmica.

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e2/Islamic_Military_Alliance.svg

Pertencem a aliança desde países com considerável poder militar, como Arábia Saudita, Turquia, Egito e Nigéria, até países com forças militares pouco significativos, a exemplo de União das Camores, Togo entre outras. Nações ainda em processo de consolidação como a Palestina, os ricos países do golfo arábico e o Paquistão (potência nuclear).

Entretanto, são os países islâmicos não convidados para a aliança que revelam muito sobre está. Maior país islâmico, a Indonésia não quis participar da aliança, provavelmente por ter seus interesses voltados para seu entorno geopolítico, distante do centro político da aliança no Oriente Médio e norte da África. O Sudão do Sul, por sua vez, tem maior aproximação com a China.

Ficaram de fora países com grande número de população xiita como Irã, Síria e Iraque. O Irã é o principal rival da monarquia Saudita na região, e a aliança pode ter no Irã um de seus antagonistas. Já o governo Sírio é um desafeto histórico de Riad e aliado do Irã, o Iraque, por sua vez, tem uma grande população xiita aliada aos interesses do Irã. Potência regional, a Argélia, de maioria sunita, também não faz parte da aliança.

Tendo em vista que algumas destas nações, que não fazem parte da Aliança Islâmica – Irã, Síria e Iraque – são também os mesmos cuja imigração se tornou mais difícil devido a um decreto assinado por Donald Trump, em vinte e sete de janeiro deste ano, é provável que estes vão cada vez mais se aproximar da Rússia. Os russos assim, como já vem ocorrendo no caso da guerra civil na Síria, terão um papel cada vez mais importante na geopolítica da região, como a União Soviética teve até os anos oitenta, antes da desagregação da URSS sob Mikhail Gorbachev, e o desastroso governo de Boris Iéltsin nos anos noventa.

Nações mulçumanas que compõe a União Econômica Eurasiática (UEE), ou querem nela ingressar, como Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Turquemenistão também não fazem parte da aliança, estando mais interessados em uma aproximação com a Rússia. Irã e Síria também se aproximam da Rússia, e nos últimos meses mesmo a Turquia, que pertence tanto a Aliança Islâmica quanto a OTAN, veem se aproximando de Moscou.

Uma vez que é capitaneada pela Arábia Saudita, principal aliado norte-americano na região e tendo como primeiro comandante Raheel Sharif – ex-chefe do Exército do Paquistão, agora aposentado – a Aliança Militar Islâmica pode vir a ser um auxiliar aos interesses norte-americanos no Oriente Médio e norte da África; e não propriamente um poder geopolítico independente. É viver para ver!

Caso a aliança realmente vingue, é possível que seu maior resultado, seja empurrar os países não membros para a esfera de influência russa, uma contramedida destes ao isolamento geopolítico e militar. Possivelmente, a médio prazo, países como Irã e Síria, e talvez até a Argélia ou mesmo o Iraque poderão optar por entrar para a União Econômica Eurasiática (UEE). Mesmo a Turquia pode vir a fazer este movimento, que mudaria significativamente o cenário geopolítico da região.

Outra incógnita virá da Índia, nação com o terceiro maior exército do mundo, armas nucleares, porta-avião, submarinos nucleares e mísseis balísticos intercontinentais; e que têm no Paquistão um forte oponente. Os dois países já travaram três guerras, e vivem em permanente estado de conflito, e é justamente um paquistanês o atual comandante da Aliança Militar Islâmica. No momento, até onde temos conhecimento a aliança ainda não resultou em uma maior integração de suas forças armadas, mas caso este cenário mude e venha a haver uma verdadeira integração entre as forças armadas da IMAFT, a Índia pode se sentir ameaçada. Em tal cenário podemos especular uma maior aproximação entre Índia, Irã e Rússia.

Devemos, por fim, lembrar que a Arábia Saudita nos últimos anos tem tido um papel ativo em conflitos no Oriente Médio. Com apoio dos Estados Unidos, Emirados Árabes, Jordânia, Egito e Sudão, desde 2015, Riad comanda a Operation Decisive Storn, bombardeando áreas do Iêmen sob o controle dos rebeldes xiitas huthis (aliados do Irã) que chegaram a conquistar a capital.

A Arábia Saudita teve importante papel também no envio de armas para os rebeldes que lutaram contra Gadaffi na Líbia e Assad na Síria. Riad interveio com tropas no Bahreim em 2012 quando a população xiita – maioria de 70% – que vivia marginalizada econômica e politicamente se revoltou contra o autoproclamado rei Hamad bin Isa bin Salman Al Khalifa. Emirados Árabes e Arábia Saudita interviram no Bahreim sob a égide do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

É certo que Riad pretende manter o status quo no Oriente Médio e Norte da África, detendo avanços dos xiitas aliados do Irã e colaborando na derrubada de governos laicos. Neste caso a Aliança Militar Islâmica será um importante fator de projeção de poder de Riad, que assim se consolida como potência regional islâmica.

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O autor é filósofo, doutor em Ciências Sociais e membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa – ABED.

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